Quinto dia de caminhada, depois de abrir e fechar porteiras, nos habituamos a respeitar a gente simples do sul mineiro. A mochila já faz parte integrante do peregrino. O sobe e desce dos morros é uma constante. - Vai com Deus amigo! - Por que vocês estão fazendo caminhada? - Não estão cansados? - Toma aqui uma maçã para matar sua fome lá adiante. Quando vi a placa, arregalei os olhos: - pastel de farinha de milho? Chegando em Tocos do Moji, uma surpresa a mais, a cidade é uma "tetéia", pequenina e organizada, uma avenida de um só quarteirão com frondosas palmeiras tremulando ao vento. Sentadas no canteiro central da avenida, algumas mulheres tecem tricot. De tempos em tempos o ronco de um veículo quebra a tranquilidade daquele lugar. Depois de um banho reparador, fomos ao que mais nos interessava no momento, comer pastel de farinha de milho. Indagamos pela pastelaria do Zé Bastião, mas a informação de que ele já havia falecido, nos deixou desconfiados e tristes. Sarrista, o moço, complementa dizendo que a pastelaria ainda existe. Ah bom! E lá estávamos apreciando pasteis de farinha de milho quando chega o Prefeito (ficou sabendo de nosso interesse pela iguaria local) e conta-nos a historia do pastel e que ele próprio baixou uma lei tornando esse produto como patrimônio cultural da cidade. Nunca mais comi pastel de farinha de milho.
Toda vez que tem oportunidade, contempla o mar agradecendo
aos deuses mitológicos. Já passeou de barco pela baía, já experimentou o sabor
da opulência de um iate, passeara de catamarã no grande lago, fizera passeio de
escuna, inclusive já remara um caiaque, mas continua com o misterioso prazer em
tê-los por perto.
Sua câmera fotográfica quase que involuntariamente aponta
para esses meios de transporte, não exatamente no sentido de meio de transporte,
mas como um ser que necessita estar presente, mesmo que inerte. Algo que deva
estar ali, pelo simples motivo de fazer parte integrante das imagens. Estão ali
para compor o quadro, em muitos casos a importância deles é tamanha que se
tornam o objetivo do foco, estão em pose para os registros fotográficos.
Passa longos momentos
admirando a partida e a chegada de pescadores em suas canoas, mas ele nunca foi
dono de um barco e permanece uma estranha sensação de que não possa ter a
liberdade de admirar esses seres se acaso tiver um em sua propriedade.
Carregar um par de óculos sobre o nariz e outro dependurado na gola da camiseta, nestas alturas da vida já é tão normal que ninguém contesta. Mesmo assim há que justificar: um deles é de óculos escuros para dias ensolarados e o outro é de óculos normais com lente. Só que no meu caso os "normais" são multifocais, para longe e para leitura. Não existisse essa possibilidade eu teria que carregar três.
Naquele dia eu estava eufórico visitando um memorial dedicado ao poeta maior do Chile: Pablo Neruda. Carregava, além dos óculos, uma câmera fotográfica. Aliás, minhas viagens se tornaram muito lentas em virtude das fotografias. Um lago, uma montanha, uma árvore florida, uma cena interessante, tudo é motivo para uma parada para um clic. Eu me movimentava até encontrar um ângulo que a meu ver fosse ótimo, subi e desci várias vezes um barranco e mirava pela lente da câmera os livros alinhados que compunham a grande obra de arte do memorial.
Satisfeito eu seguia em frente, vendo novos cenários e parando sempre que algo me chamava à atenção. Muitos quilômetros rodados e a parada em uma cidade para o pernoite. Quando fui substituir os óculos escuros pelos "normais", não consegui encontrá-los. Direcionei a investigação inicialmente entre as coisas recolhidas no quarto do hotel, depois na bagunça da bagagem que restara no carro e por fim em meus pensamentos, até que concluí ter perdido no sobe-e-desce do barranco do Neruda, mas não compensava o retorno.
Falei à minha esposa:
- Amanhã vou procurar uma ótica e mandar fazer óculos novos.
- Para isso você precisa a receita do oftalmologista.
- É verdade! Espere um pouco, vou verificar nos documentos que juntei para a viagem. Vai que tem lá uma receita de óculos.
- Ahahah. Essa é boa! Por acaso alguém carrega receita de óculos em uma viagem de férias?
Fui ver e não sei por que diabos eu havia juntado a dita receita às outras exigências legais para uma viagem ao exterior.
Me senti como uma criança que ganha uma bola nova. Não é qualquer um que vê através de lentes chilenas...
Ali ele chegou, muito cansado e com a fé abalada. Já tentara por vezes transpassar aquele obstáculo, mas os anos que lhe pesavam sobre os ombros denunciavam seu desânimo. Desde a tenra idade foi incentivado a usar seus dotes. Isso ele fez, obedecendo os princípios. Agora, enquanto reflete, sua consciência lhe cobra atitudes não tomadas. Já é tarde!
Seguiu doutrinas traçadas, orientações, ensinamentos. Fez corretamente tudo o que lhe ordenaram. Aprendeu a não questionar. A idade dos outros era sempre maior que a sua. Havia que "respeitar" os mais experientes. Todos se ausentaram e sua vez não chegou. A medida certa é evitar erros, ser proativo, experimentar e por vezes transgredir. E agora?
Para onde foram todos aqueles que o repreenderam por suas iniciativas? A liberdade sempre esteve ali à sua frente. Ele percebia, mas achava que era para os outros. Realmente, os outros passaram desse ponto, mas ele não. Só assistiu.
O sol nasce para todos. Todos tem a oportunidade. Onde então está o segredo? Encontrar os responsáveis por seus insucessos e castigá-los, resolve? Penso que não.
O indivíduo é o resultado do meio. Essa foi sua sina, ter surgido assim. Essa foi sua escolha, ter permanecido assim. Para seu desencanto culpam-no por seu fracasso e seus lamentos não são ouvidos. Mas já é tarde!
Saí por aí. Abandonei o relógio e resolvi andar um pouco, quero desvendar os mistérios do mundo, sem me preocupar com o tempo. O meu mundo é bacana, sou eu que faço acontecer. Eu tenho um bem precioso, a liberdade.
Posso voar, mas também andar e tenho enorme prazer em fazer caminhadas. Dizem que tenho pose, não acho, penso até que sou muito desajeitado. Minhas longas pernas dificultam meu voar, então me coloco a beira dos lagos, onde encontro alimento com facilidade.
O tempo está passando e muita coisa acontecendo ao meu redor, não vou ficar aqui parado, quero ver o que há do outro lado. Dizem que lá é melhor que cá. Tenho que experimentar o sabor do novo. Vida é movimento. Não dá pra ficar esperando que os outros tragam informações de como é por lá, eu mesmo quero descobrir, a meu modo, do meu jeito, só assim eu posso tirar minhas próprias conclusões.
Desde que ouvi a voz do vento murmurando, comecei a prestar atenção à seu chamado e estive andando daqui prá lá e de lá prá cá, aprendi a gostar de caminhadas, voo um tanto e ando um pouco. Gosto do que faço.
Há momentos na vida em que uma energia misteriosa surge de repente, sabe-se lá de onde e que se apodera da pessoa. Parece que a alma entra em sintonia com a dita energia e deixa enlevar-se.
Há algo de mágico para mim com relação às dezoito horas. Talvez minhas lembranças venham recuperando dados deletados. Pode ser. Nos tempos de Colégio interno, esse era o horário de descanso. Momento das diversões, dos risos, da alegria, das brincadeiras.
Algumas vezes, as sextas-feiras, dezoito horas era o momento do happy hour, merecidos deliciosos minutos se passavam contrapondo-se às longas extenuantes horas de trabalho. Mas sabia, dezoito horas de toda sexta-feira era o mágico momento de apertar o botão on/off e se lançar a um final de semana cheio de doces expectativas.
Ainda recordando os tempos de criança, dezoito horas, era quando meu avô exigia respeito e atenção à oração apresentada pela radio local.
Ontem, eu transitava de carro pela avenida beira-mar. Eram dezoito horas e não resisti. Estacionei o carro, desembarquei, sentei num banco e me deleitei com a paisagem que se descortinou à minha frente. Entre a praia e o horizonte, uma fileira de barcos. A água do mar, diferentemente do corriqueiro estava muito tranquila, sem ondas e com um brilho metálico. A lua, já alta, teimava em aparecer de trás do nevoeiro. Era lua cheia, magnífica. Logo percebi e compreendi porque as nuvens escondiam a lua. Aos poucos ela foi surgindo, jogou seus raios sobre o mar, criando o entardecer mais belo que já vi. Olhei para os lados e descobri-me solitário, então me senti importante, parecia que aquele espetáculo da natureza era apresentado para um único espectador: eu.
Face rosada com pronunciadas rugas. Barbas brancas e longas. Cabelo encaracolado, despenteado, mas sempre cuidado. Sorriso nos lábios. Andar firme e decidido, caminha olhando a linha do horizonte. Com a mão esquerda segura o alforje apoiado ao ombro. Camiseta e bermuda cinza. E para completar a indumentária um simples chinelo “havaianas”. Poucos dão valor a esse perfil, mas quando ele para e começa falar, todos prestam atenção ao que ele diz. Manoel é o nome dele. Simplesmente Manoel. Não quer que perguntem o sobrenome. Sobre sua família então, nem faz menção e divaga quando alguém insiste e toca no assunto. Talvez seja esse o traço mais intrigante e o que o torna interessante. Intrigante e interessante, seja lá o adjetivo com que queiram identificá-lo, ele não dá a menor importância.
Outro dia, passeando pela praia parei para um descanso. Sentei na areia e fiquei olhando o movimento da água do mar.
Vários barcos de pesca estavam ancorados, mas um em especial chamava a atenção de quem por ali passava. Estava virado com o fundo para cima e passei a observar também, pois um cachorro saiu debaixo dele e percebi que algo se movia além do cachorro. Levantei-me de onde estava sentado, não me dei conta de que a curiosidade move pessoas, dei alguns passos na direção do barco e fiquei observando aquele homem se levantar. O que estaria fazendo ele, debaixo do barco. Não tive dúvidas:
- Bom dia, disse ele. Mesmo antes que eu balbuciasse qualquer palavra. Ele é assim mesmo, tem iniciativa e está sempre sorridente. Para ele a vida é uma dádiva de Deus.
- Mas o que você estava fazendo embaixo desse barco? Perguntei.
Calmamente, como é de praxe, me perguntou se eu tinha tempo para ouvi-lo. Falei que sim e ele começou me contando que há alguns dias vêm tendo pesadelos e lembranças ruins têm feito perder o sono.
Mas que raios de homem misterioso é esse Manoel. Por questão de minuto, enquanto eu aguardava ele se abaixar para pegar o alforje, meu pensamento passeou rápido e tive vontade de desistir de ouvi-lo. Sabe-se lá se o nome dele é mesmo Manoel. Ele não confirma nem isso.
- Bem. Disse calmamente. Ontem quando saí para pescar, deveria ser quatro horas da manhã, minha vizinha estava discutindo com o marido.
- Veja só, quatro horas da manhã discutindo com o marido. A vida poderia ser absolutamente simples, mas o homem cria complicações e ainda se diz inteligente. Enquanto trancava a porta da minha casa, uma lânguida luz da lua clareava meu cachorro em sua casinha. Ele acordou com o barulho da chave girando na fechadura, chacoalhou a cabeça, se colocou em pé e seguiu-me até o barco. Naquele dia, fiquei com pena dele e o recolhi no barco. Ainda falei com ele.
- Rick, vou te levar comigo, mas vê se não pula na água. Ele se comportou. O Rick é obediente, é um bom companheiro.