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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Está esquisito



Voltei
O que aconteceu?
Está muito esquisito,
não estou reconhecendo este lugar,
ali havia um bosque
e lá havia um lago,
tudo está diferente.

E você,
era linda,
bem,
você continua linda,
mas este lugar não é o mesmo.

Estou pensando 
que você não deveria estar aqui,
o aqui não é pra você.

Vamos,
o lá é um misto
de ontem e hoje
onde me adaptei
e penso que tu
também acostumará.

rmc


 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Quase conheci Zé Bastião


Quinto dia de caminhada, depois de abrir e fechar porteiras, nos habituamos a respeitar a gente simples do sul mineiro. A mochila já faz parte integrante do peregrino. O sobe e desce dos morros é uma constante.

- Vai com Deus amigo!
- Por que vocês estão fazendo caminhada? 
- Não estão cansados?
- Toma aqui uma maçã para matar sua fome lá adiante.

Quando vi a placa, arregalei os olhos: - pastel de farinha de milho? 
Chegando em Tocos do Moji, uma surpresa a mais, a cidade é uma "tetéia", pequenina e organizada, uma avenida de um só quarteirão com frondosas palmeiras tremulando ao vento. Sentadas no canteiro central da avenida, algumas mulheres tecem tricot. De tempos em tempos o ronco de um veículo quebra a tranquilidade daquele lugar. 

Depois de um banho reparador, fomos ao que mais nos interessava no momento, comer pastel de farinha de milho. Indagamos pela pastelaria do Zé Bastião, mas a informação de que ele já havia falecido, nos deixou desconfiados e tristes. Sarrista, o moço, complementa dizendo que a pastelaria ainda existe. 

Ah bom!

E lá estávamos apreciando pasteis de farinha de milho  quando chega o Prefeito (ficou sabendo de nosso interesse pela iguaria local) e conta-nos a historia do pastel e que ele próprio baixou uma lei tornando esse produto como patrimônio cultural da cidade.  

Nunca mais comi pastel de farinha de milho.

Igreja de Tocos do Moji-MG



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Novos mistérios



Agora os mistérios são outros!

Havia uma enorme fila na porta do Banco,
a barbearia fechou a porta,
o canto do sabiá já não se ouve,
a escola está silenciosa,
que momento é este?

As tonalidades se foram
e a escuridão chegou.

É sempre assim,
mas outro dia chegará.

As luzes da cidade me deixam confuso,
as estrelas se tornaram invisíveis e
há que se recolher.
Todos se recolhem.

Descanso,
sossego,
pausa.

Amanhã tem mais.

Rui Morel Carneiro



segunda-feira, 28 de julho de 2014

Humanos

E lá estão eles
empilhados,
presos,
mas dizem estar seguros,
confortáveis
e ricos.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O mar e eu


Faz tempo, mas ainda lembro.

Vivíamos tão distante,
que valor eu não lhe atribuía,
aí nos conhecemos,
amizade fizemos,
desde então te respeito,
sei que mereces cuidado.

Em suas entranhas
mistérios guarda,
quiçá a humanidade consiga
compreender a importância
que tu mereces
no contexto global.

Guardião de vidas diversas,
gerando energia
e encantos mil,
as vezes aprisionando ilhas
e mitos,
és belo por natureza.

Já te vi cinza, azul e dourado,
já te vi calmo 
e também agitado,
Já foi considerado o fim,
mas também o início.
Fim não tem
e também não tem forma.

Já foi plano,
agora é curvado.
Separou povos 
e uniu continentes.

Respeito e admiração,
é o que sinto
por esse amigo
chamado de mar.

Rui Morel Carneiro







sábado, 19 de julho de 2014

Atitude!


Há dias
em que não encontramos soluções.

Momentos
desagradáveis.

Pessoas
antipáticas.

Caminhos
sem fim.

Portas
trancadas.

Céu
cinzento.

Sinais. Sinais.

É assim mesmo.

Qualquer mudança
se faz necessária.

Talvez interior,
mas há que alterar o processo.

Repensar
e ter atitude.

Rui Morel Carneiro 




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Vida simples


Lá estava ela,
curtindo a simplicidade do campo.

Aprendeu muitas coisas,
mas depois de ouvir o sábio
direcionando seus comentários gratuitos
a quem quisesse, e como é
adepta a novos conhecimentos,
seguiu em frente até que
vislumbrou naquele lugar
o que chamaria mais tarde de
lugar perfeito.

Lugar perfeito para ela
que viveu até então
na cidade grande,
entre apitos e fumaças,
corre-corre e falta de tempo,
estresses e contas a pagar.

Ali ouve o vento,
sento cheiro do mato,
conversa com o vizinho,
vê cores brilhantes,
sente energia nas veias
e prazer em viver.

Vida simples!
Era só isso que ela precisava.

Rui Morel Carneiro   




quarta-feira, 2 de julho de 2014

Retrato de um caminho


Por mais que eu conheça o caminho,
de nada adianta,
se eu não souber onde chegar.

Quis o destino que eu tomasse esse rumo,
não questionei,
segui em frente,
a cada passo sentia
angustias e prazeres,
até me dar conta
que minhas verdades
podem não ser "a verdade".

Ali na curva parei
para refletir
e senti como nunca antes
o vento me dizendo:
retorne até a encruzilhada,
lá reveja seus valores,
repense e se for o caso
tome o atalho e siga.

O melhor caminho não é,
por vezes,
o correto.  

Rui Morel Carneiro


terça-feira, 27 de maio de 2014

Enquanto a chuva não para


Esperar também é saber.

Que o tempo leva muito de nós,
nós já sabemos,
mas estamos aprendendo
a aproveitar o agora.

Se o sol não apareceu,
é sábio aproveitar o que temos,
pode ser o barulho da chuva,
pode ser a noite estrelada
ou a escuridão.

Tudo é nosso se soubermos aproveitar.

Rui Morel Carneiro

sábado, 17 de maio de 2014

O homem que nunca teve barco


              Toda vez que tem oportunidade, contempla o mar agradecendo aos deuses mitológicos. Já passeou de barco pela baía, já experimentou o sabor da opulência de um iate, passeara de catamarã no grande lago, fizera passeio de escuna, inclusive já remara um caiaque, mas continua com o misterioso prazer em tê-los por perto.

                      Sua câmera fotográfica quase que involuntariamente aponta para esses meios de transporte, não exatamente no sentido de meio de transporte, mas como um ser que necessita estar presente, mesmo que inerte. Algo que deva estar ali, pelo simples motivo de fazer parte integrante das imagens. Estão ali para compor o quadro, em muitos casos a importância deles é tamanha que se tornam o objetivo do foco, estão em pose para os registros fotográficos.


                     Passa longos momentos admirando a partida e a chegada de pescadores em suas canoas, mas ele nunca foi dono de um barco e permanece uma estranha sensação de que não possa ter a liberdade de admirar esses seres se acaso tiver um em sua propriedade. 

Rui Morel Carneiro

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Te conheço de onde?


As lembranças surgem,
vagas,
falha a memória,
mas estou me esforçando.

Convivemos tempos juntos,
quase não recordo,
é uma pena.

Foram bons momentos
isso sim eu lembro.
Momentos raros,
de felicidade.

Foram, é certo,
talvez não voltem,
mas vale a pena
recordar.

Maltrata-nos o tempo,
esse indivíduo que nos afasta,
aliado ao esquecimento,
ingrediente maléfico
e inimigo das pessoas.

 Rui Morel Carneiro

sábado, 9 de novembro de 2013

Confuso?


A vista embaça,
a realidade é posta em dúvida,
falta nitidez nas cores,
tempo e espaço se misturam,
é a confusão.

Quando a viagem parece não ter fim,
aí sim,
é preciso parar,
é preciso dar tempo ao tempo.

Admitir seus erros,
não repeti-los,
repensar,
corrigir a direção.

E então?
tudo no lugar novamente?
Pronto, seguir em frente...

Rui M Carneiro

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Óculos chilenos

Carregar um par de óculos sobre o nariz e outro dependurado na gola da camiseta, nestas alturas da vida já é tão normal que ninguém contesta. Mesmo assim há que justificar: um deles é de óculos escuros para dias ensolarados e o outro é de óculos normais com lente. Só que no meu caso os "normais" são multifocais, para longe e para leitura. Não existisse essa possibilidade eu teria que carregar três.

Naquele dia eu estava eufórico visitando um memorial dedicado ao poeta maior do Chile: Pablo Neruda. Carregava, além dos óculos, uma câmera fotográfica. Aliás, minhas viagens se tornaram muito lentas em virtude das fotografias. Um lago, uma montanha, uma árvore florida, uma cena interessante, tudo é motivo para uma parada para um clic. Eu me movimentava até encontrar um ângulo que a meu ver fosse ótimo, subi e desci várias vezes um barranco e mirava pela lente da câmera os livros alinhados que compunham a grande obra de arte do memorial.

Satisfeito eu seguia em frente, vendo novos cenários e parando sempre que algo me chamava à atenção. Muitos quilômetros rodados e a parada em uma cidade para o pernoite. Quando fui substituir os óculos escuros pelos "normais", não consegui encontrá-los. Direcionei a investigação inicialmente entre as coisas recolhidas no quarto do hotel, depois na bagunça da bagagem que restara no carro e por fim em meus pensamentos, até que concluí ter perdido no sobe-e-desce do barranco do Neruda, mas não compensava o retorno.

Falei à minha esposa:
- Amanhã vou procurar uma ótica e mandar fazer óculos novos.
- Para isso você precisa a receita do oftalmologista.
- É verdade! Espere um pouco, vou verificar nos documentos que juntei para a viagem. Vai que tem lá uma receita de óculos.
- Ahahah. Essa é boa! Por acaso alguém carrega receita de óculos em uma viagem de férias?
Fui ver e não sei por que diabos eu havia juntado a dita receita às outras exigências legais para uma viagem ao exterior.

Me senti como uma criança que ganha uma bola nova. Não é qualquer um que vê através de lentes chilenas...


 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Já é tarde.


Ali ele chegou, muito cansado e com a fé abalada. Já tentara por vezes transpassar aquele obstáculo, mas os anos que lhe pesavam sobre os ombros denunciavam seu desânimo. Desde a tenra idade foi incentivado a usar seus dotes. Isso ele fez, obedecendo os princípios. Agora, enquanto reflete, sua consciência lhe cobra atitudes não tomadas. Já é tarde!

Seguiu doutrinas traçadas, orientações, ensinamentos. Fez corretamente tudo o que lhe ordenaram. Aprendeu a não questionar. A idade dos outros era sempre maior que a sua. Havia que "respeitar" os mais experientes. Todos se ausentaram e sua vez não chegou. A medida certa é evitar erros, ser proativo, experimentar e por vezes transgredir. E agora?

Para onde foram todos aqueles que o repreenderam por suas iniciativas? A liberdade sempre esteve ali à sua frente. Ele percebia, mas achava que era para os outros. Realmente, os outros passaram desse ponto, mas ele não. Só assistiu.

O sol nasce para todos. Todos tem a oportunidade. Onde então está o segredo? Encontrar os responsáveis por seus insucessos e castigá-los, resolve? Penso que não.

O indivíduo é o resultado do meio. Essa foi sua sina, ter surgido assim. Essa foi sua escolha, ter permanecido assim. Para seu desencanto culpam-no por seu fracasso e seus lamentos não são ouvidos. Mas já é tarde!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Um passeio



Saí por aí. Abandonei o relógio e resolvi andar um pouco, quero desvendar os mistérios do mundo, sem me preocupar com o tempo. O meu mundo é bacana, sou eu que faço acontecer. Eu tenho um bem precioso, a liberdade.

Posso voar, mas também andar e tenho enorme prazer em fazer caminhadas. Dizem que tenho pose, não acho, penso até que sou muito desajeitado. Minhas longas pernas dificultam meu voar, então me coloco a beira dos lagos, onde encontro alimento com facilidade.

O tempo está passando e muita coisa acontecendo ao meu redor, não vou ficar aqui parado, quero ver o que há do outro lado. Dizem que lá é melhor que cá. Tenho que experimentar o sabor do novo. Vida é movimento. Não dá pra ficar esperando que os outros tragam informações de como é por lá, eu mesmo quero descobrir, a meu modo, do meu jeito, só assim eu posso tirar minhas próprias conclusões.

Desde que ouvi a voz do vento murmurando, comecei a prestar atenção à seu chamado e estive andando daqui prá lá e de lá prá cá, aprendi a gostar de caminhadas, voo um tanto e ando um pouco. Gosto do que faço.

Eu sou o Garça.  


terça-feira, 17 de maio de 2011

DEZOITO HORAS

Há momentos na vida em que uma energia misteriosa surge de repente, sabe-se lá de onde e que se apodera da pessoa. Parece que a alma entra em sintonia com a dita energia e deixa enlevar-se.

Há algo de mágico para mim com relação às dezoito horas. Talvez minhas lembranças venham recuperando dados deletados. Pode ser. Nos tempos de Colégio interno, esse era o horário de descanso. Momento das diversões, dos risos, da alegria, das brincadeiras.

Algumas vezes, as sextas-feiras, dezoito horas era o momento do happy hour, merecidos deliciosos minutos se passavam contrapondo-se às longas extenuantes horas de trabalho. Mas sabia, dezoito horas de toda sexta-feira era o mágico momento de apertar o botão on/off e se lançar a um final de semana cheio de doces expectativas.

Ainda recordando os tempos de criança, dezoito horas, era quando meu avô exigia respeito e atenção à oração apresentada pela radio local.     

Ontem, eu transitava de carro pela avenida beira-mar. Eram dezoito horas e não resisti. Estacionei o carro, desembarquei, sentei num banco e me deleitei com a paisagem que se descortinou à minha frente. Entre a praia e o horizonte, uma fileira de barcos. A água do mar, diferentemente do corriqueiro estava muito tranquila, sem ondas e com um brilho metálico. A lua, já alta, teimava em aparecer de trás do nevoeiro. Era lua cheia, magnífica. Logo percebi e compreendi porque as nuvens escondiam a lua. Aos poucos ela foi surgindo, jogou seus raios sobre o mar, criando o entardecer mais belo que já vi. Olhei para os lados e descobri-me solitário, então me senti importante, parecia que aquele espetáculo da natureza era apresentado para um único espectador: eu.
Rui M. Carneiro

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

MANOEL - I


CAPÍTULO I
Face rosada com pronunciadas rugas. Barbas brancas e longas. Cabelo encaracolado, despenteado, mas sempre cuidado. Sorriso nos lábios. Andar firme e decidido, caminha olhando a linha do horizonte. Com a mão esquerda segura o alforje apoiado ao ombro. Camiseta e bermuda cinza. E para completar a indumentária um simples chinelo “havaianas”. Poucos dão valor a esse perfil, mas quando ele para e começa falar, todos prestam atenção ao que ele diz. Manoel é o nome dele. Simplesmente Manoel. Não quer que perguntem o sobrenome. Sobre sua família então, nem faz menção e divaga quando alguém insiste e toca no assunto. Talvez seja esse o traço mais intrigante e o que o torna interessante. Intrigante e interessante, seja lá o adjetivo com que queiram identificá-lo, ele não dá a menor importância.
Outro dia, passeando pela praia parei para um descanso. Sentei na areia e fiquei olhando o movimento da água do mar.
Vários barcos de pesca estavam ancorados, mas um em especial chamava a atenção de quem por ali passava. Estava virado com o fundo para cima e passei a observar também, pois um cachorro saiu debaixo dele e percebi que algo se movia além do cachorro. Levantei-me de onde estava sentado, não me dei conta de que a curiosidade move pessoas, dei alguns passos na direção do barco e fiquei observando aquele homem se levantar. O que estaria fazendo ele, debaixo do barco. Não tive dúvidas:
- Bom dia, disse ele. Mesmo antes que eu balbuciasse qualquer palavra. Ele é assim mesmo, tem iniciativa e está sempre sorridente. Para ele a vida é uma dádiva de Deus.
- Mas o que você estava fazendo embaixo desse barco? Perguntei.
Calmamente, como é de praxe, me perguntou se eu tinha tempo para ouvi-lo. Falei que sim e ele começou me contando que há alguns dias vêm tendo pesadelos e lembranças ruins têm feito perder o sono.
Mas que raios de homem misterioso é esse Manoel. Por questão de minuto, enquanto eu aguardava ele se abaixar para pegar o alforje, meu pensamento passeou rápido e tive vontade de desistir de ouvi-lo. Sabe-se lá se o nome dele é mesmo Manoel. Ele não confirma nem isso.
- Bem. Disse calmamente. Ontem quando saí para pescar, deveria ser quatro horas da manhã, minha vizinha estava discutindo com o marido.
- Veja só, quatro horas da manhã discutindo com o marido. A vida poderia ser absolutamente simples, mas o homem cria complicações e ainda se diz inteligente. Enquanto trancava a porta da minha casa, uma lânguida luz da lua clareava meu cachorro em sua casinha. Ele acordou com o barulho da chave girando na fechadura, chacoalhou a cabeça, se colocou em pé e seguiu-me até o barco. Naquele dia, fiquei com pena dele e o recolhi no barco. Ainda falei com ele.
- Rick, vou te levar comigo, mas vê se não pula na água. Ele se comportou. O Rick é obediente, é um bom companheiro.